Desde 2021, uma produção teatral imersiva reconstruiu o diálogo literal de uma reunião interministerial crucial realizada em 16 de dezembro de 1940, no hotel Thermal Palace em Vichy. O evento concentrou-se na implementação da lei de 3 de outubro sobre o estatuto dos judeus, preparando especificamente medidas para excluí-los da função pública francesa apenas três dias antes da legislação entrar em vigor.

Durante a reunião, Julienne Laveissière, representando a Secretaria de Estado para Produção Industrial e Trabalho, fez um pedido aparentemente inofensivo por uma ata oficial cuidadosamente redigida. Este diálogo específico foi preservado porque a transcrição literal foi anexo incomum às atas da reunião. O documento permaneceu nos arquivos da Secretaria-Geral da Presidência do Conselho até que o historiador Marc Olivier Baruch o descobrisse em 1993, enquanto pesquisava sua tese sobre a administração francesa sob o regime de Vichy.

A peça, intitulada "Jouer l'archive, octobre-décembre 1940", foi criada e dirigida por Keti Irubetagoyena com estudantes do Conservatório Nacional Superior de Arte Dramática. A produção transforma o texto arquivístico em uma performance que revela os mecanismos frios e desumanizados da máquina tecnocrática de Vichy sob uma superfície que às vezes se assemelha ao vaudeville. Embora a peça tenha sido apresentada em diversos ambientes, como escolas secundárias, liceus e o Memorial do Holocausto, ela encontrou ressonância significativa dentro do próprio aparato estatal.

A troupe apresentou o trabalho a altos funcionários atuais no Conselho de Estado, na Corte de Contas e em vários ministérios, forçando-os a confrontar os dilemas e desvios de seus antecessores. Claire Landais, falando em outubro de 2025, pouco antes de deixar seu cargo na Secretaria-Geral do Governo, observou que a performance destacou o distanciamento gelado possível dentro de máquinas burocráticas que perdem sua alma. O projeto serve como um ponto de encontro entre teatro e história para auxiliar a alta administração a examinar tanto seu passado quanto suas responsabilidades presentes.

Fontes: Le Monde Culture.