O prémio Formentor de las Letras regressou ao hotel de Maiorca que acolheu as suas primeiras reuniões literárias, com o romancista português Gonçalo M. Tavares a receber o galardão deste ano. A cerimónia teve lugar no hotel remodelado agora conhecido como Four Seasons Resort Mallorca at Formentor, na baía do cabo de Formentor. O júri distinguiu Tavares por expor as consequências inesperadas de uma humanidade com medo de si própria e por narrar a épica paradoxal do extravio contemporâneo.
No seu discurso de aceitação, Tavares elogiou um prémio que procura manter-se à margem das modas, dos fenómenos passageiros e das listas de bestsellers. Afirmou que a lista de vencedores anteriores, que inclui Jorge Luis Borges, Saul Bellow, Carlos Fuentes e Annie Ernaux, impõe respeito e honra obras extraordinárias de escritores que foram radicais e intransigentes com o seu próprio trabalho. Acrescentou que entre esses nomes não há vendedores nem comerciantes, e que nenhum deles negociou com o público ou com os leitores, mas seguiu antes as suas florestas privadas em direção aos moinhos de vento imaginários que cada um trazia na cabeça.
O regresso a Formentor segue-se a um período em que o prémio e as suas conversas foram realizados em lugares como Canfranc, Marrakech e Aranjuez, em hotéis pertencentes à cadeia Barceló. Basilio Baltasar, o arquiteto da segunda etapa do galardão, disse que o evento regressava ao berço onde tudo começou e recuperava o espaço, a baía e o espírito do lugar, onde a memória do mundo clássico está codificada na paisagem. O hotel situa-se na protegida Serra de Tramuntana, Património Mundial, e a sua reconstrução não esteve isenta de polémica e de protestos de grupos ambientalistas. O prémio teve a sua primeira etapa entre 1961 e 1967 e foi reativado em 2011; este ano celebra a sua 16.ª edição. Estivera sediado no hotel até 2020, quando a propriedade deixou o grupo Barceló, antes de iniciar a sua itinerância e regressar a Pollença seis anos depois.
A história de Formentor começou com duas reuniões literárias realizadas no espaço de dez dias em maio de 1959. A primeira foi uma iniciativa de Camilo José Cela, que promoveu no hotel as Conversaciones Poéticas, às quais compareceram figuras como Vicente Aleixandre, Robert Graves, Rosario Conde, José Agustín Goytisolo e Carles Riba. A segunda, o Primeiro Colóquio Internacional sobre o Romance, teve no poeta e editor Carlos Barral uma figura central. Jordi Amat, coordenador do suplemento Babelia e autor de uma biografia de Gabriel Ferrater, recordou que a elite da edição internacional se reuniu em Formentor para discutir literatura, naquilo que descreveu como exercícios espirituais e muito espirituosos. Juan Goytisolo chamou às primeiras reuniões um 'contubernio' e traçou um paralelo com o congresso de Munique da oposição antifranquista. Em 1961, o prémio Formentor de las Letras foi criado por um grupo de editores que incluía Barral, Claude Gallimard e Giulio Einaudi. Nas suas primeiras edições tinha dois ramos, um que distinguia uma carreira e outro um romance inédito, e permaneceu ativo até 1967, quando Formentor se tinha tornado um espaço incómodo para o regime.
Na sua segunda vida, o formato difere do dos anos 1960. Todos os anos o prémio é apresentado no âmbito das Conversaciones Literarias, que têm um lema diferente. O tema deste ano é 'Artistas, emuladores e copistas'. A primeira sessão do Colóquio Europeu de Editores realizou-se no piso inferior do hotel, tendo a irrupção da inteligência artificial na edição como um dos principais temas. Está prevista para segunda-feira uma sessão dedicada ao arquiteto Antoni Gaudí. Elena Martínez Bavière, diretora editorial da Alianza e da Cátedra, disse que o espaço único permite pensar o ofício editorial para além da urgência quotidiana, e que, quando editores de diferentes países, gerações e trajetórias se sentam juntos, surgem perspetivas que não apareceriam em conversas com os colegas habituais. A escritora e biógrafa Anna Caballé, três vezes membro do júri do prémio, disse que nunca tinha visto um lugar onde continente e conteúdo, arte e natureza, estivessem tão bem fundidos, e descreveu Formentor como um espaço geográfico habitado pelo mito do respeito e da preservação dos mais altos valores da literatura.
O galardão tem demonstrado um forte historial nos últimos anos. Quando a escritora francesa Annie Ernaux o recebeu em 2019, não era amplamente conhecida em Espanha; três anos mais tarde foi distinguida com o Prémio Nobel. Algo semelhante aconteceu com o escritor húngaro László Krasznahorkai, que recebeu o Formentor em 2024 e o Nobel no ano seguinte. Na primeira etapa do prémio, Samuel Beckett e Saul Bellow também viriam a receber o Nobel. Javier Marías, Enrique Vila-Matas, Mircea Cărtărescu e Cees Nooteboom estão entre os vencedores dos últimos anos.
Fontes: El País Cultura.