A primeira sessão de estúdio do Bad Brains, uma demo de seis faixas gravada em 1979 no Inner Ear Studio, de Don Zientara, foi remasterizada e lançada pela Trust Records como Are You Ready: The First Studio Recording. O lançamento revisita o momento em que a banda — o vocalista HR, o guitarrista Dr Know, o baixista Darryl Jenifer e o baterista Earl Hudson — passou das ambições adolescentes de jazz fusion para o punk rápido e indomado pelo qual ficou conhecida. Jovens, negros e movidos por uma mistura das ideias de autoajuda de Napoleon Hill e do Rastafari, eles estavam fora do padrão na cena punk, mas sua influência mais tarde alcançou artistas como Rage Against the Machine, Deftones, Lil Jon, the Roots e Beastie Boys.
HR, nascido Paul D Hudson, e seu irmão mais novo, Earl, conheceram Dr Know (Gary Wayne Miller) e Jenifer na Central High, em Maryland. Jenifer vinha dos conjuntos habitacionais do sudeste de Washington DC. Ele relembrou uma professora de arte que permitia que os alunos trouxessem discos, e disse que os músicos do grupo se uniram por álbuns como Spectrum, de Billy Cobham, e não Earth, Wind & Fire. Eles ensaiavam na casa de um amigo quando a mãe dele saía para jogar bingo. Miller disse que suas influências abrangiam música branca e negra, rock’n’roll e funk. Jenifer disse que primas zombavam dele por ouvir música que consideravam impossível de dançar.
No início, o grupo era o Mind Power, aspirando ao jazz fusion de Return to Forever e Mahavishnu Orchestra. Jenifer descreveu isso como uma fase adolescente ilusória: uma música, nenhum show. Sid McCray então descobriu o punk e apresentou a eles Sex Pistols, Dead Boys e Ramones. Jenifer se sentiu libertado pela música. Mind Power se tornou Bad Brains, e HR assumiu os vocais de McCray. Um cartaz antigo os anunciava como a maior banda de punk rock do mundo — bravata sustentada pelo compromisso da banda com a PMA, atitude mental positiva.
HR disse que seu pai o incentivou a ler Think and Grow Rich, de Napoleon Hill; ele adotou a PMA como fórmula e veículo para sua música enquanto lidava com drogas pesadas, um emprego sem futuro como segurança e a paternidade iminente. Jenifer disse que a banda queria propósito e uma mensagem: não apenas uma banda, mas uma missão. Esse foco era evidente no Inner Ear, relembrou Zientara: as músicas e a energia estavam lá, e a sessão foi tão rápida que ele se perguntou depois se realmente as tinha gravado.
Depois de outras sessões de demo, o Bad Brains lançou o breve compacto de 7 polegadas Pay to Cum em 1980, seguido por seu álbum homônimo e Rock for Light, produzido por Ric Ocasek. O período foi turbulento. Vários locais de Washington proibiram o grupo; Miller disse que donos de clubes os acusavam de incitar motins ao fazer os jovens enlouquecerem. Um show em 1979 com o Damned levou a um convite para turnê no Reino Unido, mas a banda tentou entrar sem documentos de trabalho e foi enviada direto de volta aos EUA, sem dinheiro e com equipamento perdido no caminho.
Ao vivo, a reputação da banda se tornou lendária. HR era conhecido por se contorcer e dar mortais para trás enquanto entregava vocais rápidos e cantos suaves; a banda tocava um punk extremamente rápido, influenciado por punk, funk e fusion. Nancy Barile, que os viu pela primeira vez na Filadélfia em 1982, descreveu uma resposta física e visceral e disse que o público precisava participar; o fotógrafo Glen E Friedman disse que nunca tinha visto nem ouvido nada como eles.
O grupo se separou pela primeira vez depois de Rock for Light. HR desconfiava do interesse de grandes gravadoras, e as tensões cresceram por causa do gosto crescente dele e de Earl por sets só de reggae. O legado da banda também carrega embates abusivos e homofóbicos com membros da comunidade gay da cena hardcore, notadamente a banda punk texana Big Boys, cujo vocalista era gay. Bob Mould relembrou a homofobia dirigida ao Hüsker Dü. A música Don’t Blow Bubbles, de 1989, foi percebida como antigay e desde então foi repudiada, mas continua a assombrar a banda. Jenifer disse que foi ensinado a amar todas as pessoas e rejeitou a homofobia, sugerindo que houve um fanatismo juvenil e equivocado em ação.
O Bad Brains se reuniu para I Against I, de 1986, expandindo-se para soul, funk e heavy metal. Apesar de um orçamento limitado da gravadora, conseguiram o produtor Ron Saint Germain. HR estava na prisão por uma apreensão de maconha durante a produção do disco; ele disse que Saint Germain sugeriu que ele cantasse os vocais de Sacred Love pelo telefone. HR, então trabalhando como faxineiro passando mop no chão, conseguiu folga no domingo e concordou em tentar.
A partir do final dos anos 1980, a banda existiu de forma intermitente. Os lançamentos foram interrompidos por separações, mudanças na formação e incidentes violentos que descarrilaram shows de grande visibilidade com o Beastie Boys e um contrato com a Maverick Records, de Madonna. Miller disse que todo mundo pode ser difícil de lidar, mas no palco o espírito assume o controle. Miller está se recuperando de um AVC grave e de câncer, enquanto HR está em tratamento para síndrome de SUNCT e transtorno esquizoafetivo; outra apresentação é improvável. O acordo com a Trust Records coloca seu legado gravado em mãos mais seguras. Miller disse que a banda sabia desde o início que era única, e que os ouvintes deveriam olhar para a história do rock’n’roll — Muddy Waters e outros — em vez de Elvis Presley.
Fontes: The Guardian Music.